Em respeito ao diálogo social e à pluralidade de opiniões, o Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários de Brasília publica, a seguir, a manifestação encaminhada pela Presidenta do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, em face da matéria “Conselhos ignorados, erros repetidos”, publicada na edição do Espelho DF de 29 de maio de 2026. O mesmo texto também será publicado na próxima edição impressa do Espelho DF.
Segue abaixo a manifestação da Presidenta do BB, Tarciana Medeiros:
O dever de ouvir. A coragem de decidir.
Há quem acredite que liderar seja convencer. Com o tempo aprendi que liderar é, muitas vezes, suportar.
Suportar a dúvida de quem espera respostas imediatas. Suportar a ansiedade de quem teme as mudanças. Suportar críticas justas, críticas injustas e, por vezes, até o silêncio e os ataques de quem já não acredita que vale a pena dialogar.
Nenhuma instituição do tamanho e da importância do Banco do Brasil atravessa transformações profundas sem provocar desconfortos. Seria ingenuidade imaginar o contrário. Mudar significa rever processos, desafiar hábitos, redistribuir recursos, abandonar práticas que fizeram sentido durante décadas e construir outras capazes de responder a um país que também mudou e a uma indústria financeira que muda e evolui a passos largos.
Esse processo exige escolhas. E escolhas, por definição, deixam pessoas insatisfeitas.
Receber críticas nunca foi um problema para mim, ao contrário, críticas responsáveis ajudam a corrigir rumos, ampliam perspectivas e tornam qualquer organização mais forte. O problema nunca foi a divergência. O problema surge quando deixamos de reconhecer que, do outro lado da mesa, também existem pessoas movidas por convicções sinceras e pelo desejo de fazer o melhor para o Banco do Brasil e para as pessoas que fazem o BB.
Nos últimos tempos, no entanto, tenho observado que parte desse debate ultrapassou o campo das ideias. Quando críticas passam a carregar traços de misoginia, machismo, xenofobia ou qualquer forma de violência, deixamos de discutir o Banco do Brasil e passamos a reproduzir práticas que precisam ser enfrentadas com clareza e firmeza.
Quero ser explícita. A violência contra as mulheres precisa deixar de existir. Em todas as suas formas. É ainda mais grave quando parte de quem deveria proteger, representar e defender direitos. Não há espaço para esse tipo de comportamento em nenhuma instituição, muito menos em uma organização que deve refletir os valores de respeito, equidade, inclusão e dignidade.
Não se trata de vitimização. Trata-se de estabelecer limites claros. Divergir é legítimo. Questionar decisões faz parte da democracia. Mas desqualificar, recorrer a estereótipos ou utilizar linguagem que reforça desigualdades e violências históricas, não é aceitável. Isso não fortalece o debate, isso o empobrece.
Respeito profundamente quem pensa diferente de mim. Mas também compreendo que ocupar uma posição de liderança significa assumir uma responsabilidade que não pode ser terceirizada. Escutar é indispensável. Decidir é inevitável. Nem toda decisão agradará a todos e talvez essa seja uma das maiores solidões da liderança.
Ao longo da minha trajetória, aprendi algo que continua orientando cada escolha que faço: nenhuma transformação faz sentido se perdermos de vista as pessoas. Não apenas os clientes que confiam no Banco do Brasil para realizar seus sonhos, investir na produção, abrir uma empresa, financiar uma safra ou um bem. Também diz respeito aos milhares de funcionários que, todos os dias, fazem esta instituição existir.
Os resultados que o Banco apresenta não pertencem à Presidência. Não pertencem à Diretoria. Não pertencem ao Conselho. Eles pertencem à instituição, aos seus funcionários, aos acionistas e ao país. A instituição reinveste para permitir a sustentabilidade do BB e a manutenção dos empregos das pessoas que abrem agências antes do amanhecer, atendem clientes, analisam operações, desenvolvem sistemas, trabalham nos centros administrativos, percorrem estradas para visitar produtores rurais, acolhem famílias em momentos difíceis e carregam, com orgulho, o crachá de uma instituição bicentenária.
Tenho consciência de que mudanças despertam receios legítimos. Há preocupações sobre condições de trabalho, sobre o futuro das agências, sobre tecnologia, sobre carreira, sobre o papel do banco público. Essas inquietações merecem ser tratadas com respeito, nunca com desdém.
Ouvir essas vozes faz parte do nosso trabalho. Mas ouvir não significa renunciar ao dever de preparar o Banco do Brasil para o futuro. Nossa missão não é escolher entre ser humano ou eficiente. Entre ser público ou competitivo. Entre inovar ou preservar nossa história. Nossa obrigação é provar, todos os dias, que essas aparentes contradições podem caminhar juntas.
Precisamos ser um banco cada vez mais digital sem abandonar quem ainda precisa do atendimento presencial. Precisamos incorporar inteligência artificial sem perder inteligência humana. Precisamos gerar resultados consistentes porque é justamente essa solidez que garante nossa capacidade de financiar a agricultura, apoiar pequenos empreendedores, executar políticas públicas, fortalecer municípios e continuar sendo um patrimônio de todos os brasileiros.
Não existe banco público forte sem sustentabilidade econômica. Da mesma forma, não existe resultado financeiro que justifique perder nossa razão de existir. É nesse equilíbrio delicado que acredito e tenho trabalhado com responsabilidade e determinação, todos os dias.
Também sei que, em tempos de redes sociais, é fácil transformar diferenças em confrontos permanentes. O ambiente digital frequentemente recompensa o exagero, a caricatura e a simplificação. O diálogo cede espaço aos rótulos. Pessoas passam a ser definidas por frases isoladas e não por suas trajetórias, seus valores ou suas intenções.
Não pretendo contribuir para esse ambiente.
Prefiro acreditar que instituições centenárias se fortalecem quando substituímos acusações por argumentos, desconfiança por transparência e antagonismo por disposição para construir, sempre com respeito, sem espaço para preconceitos ou qualquer forma de violência que diminua pessoas e afaste soluções.
O Banco do Brasil já enfrentou guerras, crises econômicas, mudanças de regime político, hiperinflação, revoluções tecnológicas e profundas transformações sociais. Permaneceu de pé porque nunca pertenceu a uma pessoa e nem a uma gestão.
O Banco do Brasil pertence ao Brasil e, justamente por isso, precisa continuar evoluindo. Seguirei ouvindo.
Seguirei me posicionando. Seguirei dialogando. Seguirei corrigindo o que precisar ser corrigido. Mas também seguirei tomando as decisões que entender necessárias para que esta instituição continue forte pelos próximos duzentos anos.
Porque liderar não é buscar unanimidade. É honrar a confiança recebida, mesmo sabendo que nem todas as decisões serão compreendidas no presente.
A história costuma julgar melhor do que o calor das circunstâncias. E é para ela e para as próximas gerações de funcionários, clientes e brasileiros que estamos trabalhando.
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