Sindicato debate adoecimento no trabalho x suicídio

Sindicato debate adoecimento no trabalho x suicídio Destaque

Sindicato debate adoecimento no trabalho x suicídio

O suicídio é responsável por 800 mil mortes anuais em todo o mundo, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). E de acordo com o Ministério da Saúde, em 2016, o Brasil registrou 11.433 casos de interrupção da vida por conta própria -- em média, um caso a cada 46 minutos. Para debater esse assunto, pauta da campanha Setembro Amarelo, e a importância do resgate da solidariedade nas relações de trabalho, a Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato realizou o seminário “Quanto vale uma vida? Trabalho que adoece!”, na quarta-feira (17), na sede da entidade.

Bancários, delegados sindicais, dirigentes e funcionários do Sindicato participaram do evento, que contou com as palestras da professora doutora Ana Magnólia, do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), que abordou o tema ‘Cuidando do sofrimento no trabalho dos bancários’; e da advogada da assessoria jurídica previdenciária do Sindicato, Janaína Barcelos, que falou sobre as ‘Implicações jurídicas do sofrimento no trabalho’.

Na abertura do seminário, a diretora de Saúde do Sindicato, Mônica Dieb, ressaltou que “é preciso investigar as causas desses dados alarmantes sobre o suicídio, um problema de saúde pública mundial, que vem crescendo entre a categoria bancária, e conscientizar sobre a importância da identificação dos sinais e da busca por ajuda”.

A dirigente sindical destacou que o sofrimento no trabalho gera o adoecimento, que pode levar a consequências fatais. “Por isso, o acolhimento humanizado e qualificado é fundamental”, observou. E reiterou que o Sindicato está de portas abertas para receber os bancários e bancárias que precisam de ajuda, de orientação e, por vezes, de acompanhamento profissional especializado.

“Nosso papel é ouvir o bancário e identificar as causas do sofrimento e do adoecimento da categoria para intervir no ambiente que adoece os bancário. As estatísticas são frias. Nós dizemos que cada vida é muito valiosa. Nem uma vida a menos! Precisamos lutar por isso”, enfatizou Mônica.

Diretor de Saúde da Federação Centro-Norte (Fetec-CUT/CN), Wadson Boaventura informou que os bancários que buscaram assistência psicológica na Clínica do Trabalho do Sindicato nos últimos dois anos relataram fatos estarrecedores vivenciados no ambiente de trabalho. “Por isso, é importante trazer novamente essa temática a debate, e reforçar a necessidade de se preocupar com o outro”, apontou.

Wadson convocou todos a se unirem ao exército de indignados contra esse processo de adoecimento no trabalho (que envolve assédio moral, pressão, humilhação, constrangimento, sobrecarga de trabalho) para que, preparados, possam enfrentar a situação e não permitir a continuidade desta relação doentia, que pode matar.

Canto da sereia

Ana Magnólia, que coordenou a pesquisa sobre o adoecimento dos bancários que deu origem à cartilha ‘Você não está sozinho – Cuidando do sofrimento no trabalho dos bancários’, esclareceu que o serviço de assistência psicológica oferecido pelo Sindicato, por meio da Clínica do Trabalho, é único no país. Ela orientou que qualquer bancário que se sentir em sofrimento deve procurar o Sindicato, que atualmente atende cerca de 50 bancários.

De acordo com a professora da UnB, a pesquisa aponta que entre os sintomas mais relatados pelos bancários estão sentimento de tensão (87,30%), incapacidade de relaxar (86,10%), irritabilidade (83,50%), dificuldade de dormir (78,50%), pensamentos obsessivos (77,20%) e tristeza (75,90%). E mais: 83,6% deles gostariam de sair do banco.

Para fugir desses sofrimentos, uma saída seria desconstruir “o discurso capitalista neoliberal, que é como um canto da sereia”, disse a psicóloga, alertando que é importante se policiar, desviar o barco e não "entrar nessa". “Não fique aprisionado ao sistema, que ilude com falsas promessas de felicidade através de bens de consumo e posses (o ter) como sendo o único critério válido de identidade social, porque é isso que vai provocar o sofrimento e o consequente adoecimento. Portanto, escute a sua própria voz, a dos colegas e construam juntos a verdadeira democracia no ambiente de trabalho, onde você pode dizer o que pensa e, mesmo pensando diferente, haja respeito e debate de ideias. Isso vai trazer a resistência”, ensinou Ana Magnólia.

Ela convocou todos a participarem da rede de indignação sugerida pelo diretor Wadson Boaventura: “É uma forma de nos desligarmos da captura do sistema (o canto da sereia). Se você se sentir indignado, procure conversar com um colega ou venha ao Sindicato para evitar transtornos maiores, porque a busca tardia é um grande problema”.

Implicações jurídicas

Ao abordar as ‘Implicações jurídicas do sofrimento no trabalho’, a advogada da assessoria jurídica do Sindicato, Janaína Barcelos, deu orientações referentes aos direitos dos bancários no caso de adoecimento e afastamento do trabalho e procedimentos administrativos dos bancos e do INSS para realização de perícias e recebimento de benefícios.

A advogada orientou que, no caso de desrespeito às normas por parte da empresa, é fundamental que o trabalhador faça a denúncia no Sindicato, para que sejam tomadas as providências cabíveis no âmbito administrativo e judicial, se necessário. Ela informou que a revisão e a suspensão de benefícios do INSS têm causado muita indignação e transtornos para os bancários já sofridos. 

Outro tema abordado por Janaína foi a reparação de danos morais por assédio moral. “É preciso reagir e repelir os assediadores, denunciando e buscando ajuda no Sindicato. Anotem datas, horários, fatos, mensagens de WhatsApp, gravação, e-mails, o que for possível” para servir de prova, e evite conversar a sós com o assediador, alertou a advogada que assessora a Secretaria de Saúde.

Mariluce Fernandes
Do Seeb Brasília