CVN/SBB recebe descendente da linhagem da rainha angolana N’zinga Mbandi

A Comissão da Escravidão Negra do Distrito Federal e Entorno do Sindicato dos Bancários de Brasília (CVN/SBB) recebeu em sua reunião desta semana, a visita do terapeuta bíblico, pastor e escritor Aércio Van-Dúnem, acompanhado da pastora Lindsay Batista.

Nascido em Luanda, capital de Angola, o teólogo é mais uma das visitas ilustres que vem à CVN/SBB com o objetivo de fortalecer a luta pela política de reparação em favor dos direitos da população afro-brasileira. O também presidente da ONG Índio Vivo parabenizou o trabalho da CVN/SBB e apontou a iniciativa como uma convenção de mentes brilhantes com perfis de todas as áreas das ciências. “Eu achei essa reunião o máximo e acredito que cada um dos consultores tem algo de valor para contribuir e assim tantos outros se beneficiarão desse trabalho. Acredito que se essa iniciativa já existisse há mais tempo, muita coisa já teria mudado”, ressalta.

Oralidade – o saber que se ensina – Quadraneto da rainha N’zinga M’bandi, Aércio Van-Dúnem surpreendeu a todos com o relato real e excelso da história de sua família. Por meio da oralidade repassada por seus ancestrais, contou como a superioridade e inteligência da rainha resistiu a invasão dos portugueses e holandeses ao reino N’dongo, em 1618.

As guerras se davam porque os portugueses queriam tomar o reino N’dongo que pertencia a M’bande N’gola Kiluanje, que tinha muitos filhos, dentre eles N’zinga Mbandi e N’gola M’bandi que após a morte de seu pai por ser o irmão mais velho se auto pronunciou rei. Só que era do conhecimento de todos, que a N’zinga M’bandi possuía mais força, inteligência política e militar do que ele, mas por ser mulher ele a ignorou.

A ambição pelo poder fez com que N’gola M’bandi matasse o próprio sobrinho, filho de N’zinga, na tentativa de se impor. Com tamanha manifestação de violência, os demais irmãos fugiram de um novo possível desastre e se viram obrigados a deixar região se tornando refugiados do reino, criando assim os primeiros quilombos da história do mundo. De acordo com a cultura bantu e seus dialetos, a palavra quilombo é atribuída ao significado de uma habitação de refúgio.

Estratégia e soberania – N’gola M’bandi continuou reinando e enfrentando os portugueses, mas por não possuir a mesma inteligência que a irmã, ele não conseguiu equilibrar as questões políticas do país. Assim, ele chamou N’zinga para ajudá-lo a fazer um acordo com os colonizadores.

No momento do acordo, os portugueses seguindo o princípio da suposta inferioridade dos negros, não deram à N’zinga um lugar para sentar na mesa de reuniões. Ela, que não se deixava ser vencida chamou uma de suas criadas e fez dela um banco sentando em suas costas durante todo o encontro. Ao fim das negociações, o governador geral português perguntou se ela não levaria seu assento e a rainha respondeu que não se sentava no mesmo banco duas vezes, deixando a criada para trás. Com esta postura, N’zinga demonstrou que também era autoridade a ser respeitada, principalmente dentro de suas próprias terras, revertendo a situação diante dos portugueses.

Quando N’gola M’bandi percebe que ela conseguiu resolver o problema que ele não estava conseguindo, ele ficou satisfeito, só que não obstante ele veio a falecer, supostamente envenenado. Alguns atribuem tal morte a uma conspiração iniciada por ela, o fato é que após sua partida, N’zinga reúne seus quilombos e volta ainda mais fortalecida para seu reino.

Quando ela retorna, os portugueses haviam feito uma aliança com os holandeses, mas ela consegue desvirtuar esse acordo e conseguiu o apoio holandês que cedeu aproximadamente 300 soldados. Juntos, derrubaram o poderio português.

Também como tática de guerra aceitou o batismo recebendo assim o nome de Ana Sousa. E uma prática que ela não admitia em seu reino era o tráfico de escravizados que se dava como forma de pagamento de débitos que uma tribo poderia ter com a outra. Os devedores invadiam as demais tribos em aliança com os portugueses, vendiam, trocavam e aprisionavam os considerados mais fracos e matavam os mais fortes. Como ela já possuía muita força e pulso firme, ela conseguiu erradicar tal prática enfraquecendo de vez os portugueses.

Tudo ficou em paz por apenas cinco anos, em 1663, a mais famosa rainha da África morre aos 81 anos, onde os portugueses se aproveitam e quebram a aliança antes estabelecida voltando a comercializar reis, rainhas e todo principado como escravos trazidos principalmente para o Brasil.

Negação da própria história – Com sua morte surge uma nova guerra interna no país. A família da rainha que ainda representava muita força, começou a ser perseguida pelos próprios compatriotas. A perseguição foi tanta que uma forma que os membros da família real encontraram para se proteger foi negando a própria origem.

Já em 1961 uma triste história que exemplifica o terror vivido, foi a experiência de Margarida N’guenda Lucove, avó de Aércio Van-Dúnem, que tinha muitos filhos, netos e sobrinhos, alguns mortos por um cruel massacre ocorrido ainda por ocasião da guerra interna. Os guerrilheiros chegaram até sua casa e começaram a matar a todos com a ajuda de catanas (no Brasil conhecidas como facões), mas ela conseguiu salvar um neto colocando-o dentro de um pequeno vaso, tornando-o sobrevivente. Há ainda uma outra neta que sobreviveu ao ataque, pois passou-se por morta na presença dos guerrilheiros. Todas as outras crianças foram violentamente assassinadas.

Na ocasião, tais guerrilheiros decidiram matar também a corajosa senhora com um tiro na cabeça e quando eles apontaram a arma, ela que possua a mesma altivez que sua ancestral, a rainha N’zinga, pronunciou as seguintes palavras: “Se Deus existe, vocês não vão conseguir me matar, eu sou N’zinga ou seja em mim corre o sangue guerreiro dela”. Então, foi dado o primeiro tiro, a arma não funcionou. No segundo tiro, apontado para o ar, a bala saiu normalmente. Apontaram novamente para ela, apertavam o gatilho e a arma tornou a falhar. Por fim, de dentro do revolver começou a sair areia, assustando os guerrilheiros que saíram gritando e dizendo que ela era uma feiticeira. Margarida eternizou seu momento de dor e luta exaltando “eu não sou feiticeira é porque Deus existe e eu sou N’zinga”.

Por Denise Porfírio/Ascom CVN/SBB

Deixe uma resposta