Com Macri desinflado, quem decide é o FMI (e o povo sofre)

Com Macri desinflado, quem decide é o FMI (e o povo sofre) Destaque

Com Macri desinflado, quem decide é o FMI (e o povo sofre)



Juan Guahán*

Finalmente, o copo transbordou. Todos avisaram o presidente que a política econômica caminhava para o desastre, mas ele não quis mudá-la, e agora a conta chegou. A data de vencimento deste governo pode ser a de dezembro de 2019, estabelecida pela Constituição, ou pode ser antes, dependendo das consequências sociais. Na prática, Macri já não decide quase nada a respeito dos grandes temas econômicos. Quem manda é o FMI, enquanto o povo enfrenta as consequências de um macrismo sem futuro, que abre espaço para uma possível nova hegemonia peronista.

A raiva do povo vem crescendo e se manifestando das mais diversas formas. O governo responde a ela com dois mecanismos complementares: apelando à uma mídia omissa que usa todos os elementos possíveis para direcionar os noticiários a outros temas (sejam fofocas do mundo dos espetáculos ou o show das acusações contra Cristina Kirchner), e ignorando, ou negando, e/ou desacreditando as mobilizações, acusadas de destituintes ou golpistas.

Evadir a realidade não ajuda em nada, pois não evita que ela continue presente, e cada dia mais intensa e multitudinária. A fábrica desses protestos está no próprio governo e suas políticas. Não quiseram escutar os avisos, até que a força da verdade passou por cima das suas desculpas. Neste caso ao menos, a verdade vem matando a pós-verdade.

No final do ano passado, o sistema financeiro internacional já avisava que a política de financiar os empréstimos que o governo argentino havia pedido deveria terminar. O alerta, evidentemente, não se dava por divergências ideológicas com as políticas de Mauricio Macri, e sim porque perceberam que se estava caminhando a uma tragédia – que resultaria em problemas para cobrar os empréstimos da Argentina depois, o que obviamente era a principal preocupação dos guardiões do sistema.

O governo nunca os levou a sério. Imaginaram que sempre encontrariam outras fontes de financiamento para suas políticas. Com o passar das semanas, foram se convencendo da gravidade da situação, enquanto o país se debatia entre ferozes e infrutíferas discussões sobre aplicar o “gradualismo” ou políticas de “choque”.

A corrida bancária de abril e suas consequências

Foi assim que chegamos à segunda quinzena do mês de abril, e apareceu a “corrida bancária”, que terminou três semanas depois, no acordo com o FMI e uma aparente “calma”. Mas por trás dessa aparência estava o “saldo” da manobra. O peso argentino perdeu 20% do seu valor (passou de 21 a 25 pesos por dólar); as taxas bancárias saltaram de 27,5% para 40%; o “risco país” foi de 383 a 482 pontos; o Banco Central perdeu 8,4 bilhões de dólares somente nessas três semanas.

Assim, o governo foi obrigado a descartar a possibilidade de uma atividade econômica favorável em 2018, e teve que se preparar para a continuidade de uma tendência de alta da inflação, que naquele momento já se supunha que não ficaria em menos de 30% anual. Mas, esse mesmo setor financeiro, que – de forma irresponsável – havia emprestado ao governo tudo o que ele pediu, começou a exigir resultados de repente... e imediatamente. O governo apostou em governar com e para os “mercados”, agora tinha que aceitar os seus ditados.

Durante os três meses e meio da “normalização da corrida bancária” (de abril até a última semana de agosto), a parte dura da crise parecia que havia passado, mas a economia continuava em uma queda constante, de efeitos nocivos, que preparavam as condições de um novo salto em direção ao colapso.

O peso argentino continuou se desvalorizando aos poucos, e no dia 24 de agosto a cotação já estava em 31 pesos por cada dólar; com um “risco país” de 700 pontos; as taxas bancárias ao redor de 40% e o Banco Central insistindo em desperdiçar reservas para manter o dólar “controlado”.

Nesse período, o país perdeu mais 13 bilhões de dólares – o que, somando com as perdas daquele terrível mês de abril, acumula mais de 30 bilhões que “fugiram” da economia do país desde o início da crise. O empréstimo do FMI chegou em junho, com um adiantamento de 15 bilhões de dólares (quase um terço do total prometido), mas não serviu para que o deus mercado ficasse satisfeito. Ele sempre quer mais.

A desastrosa última semana de agosto

O governo se desinflava e algumas de suas próprias figuras, como Rogelio Frigerio, María Eugenia Vidal e Horacio Rodríguez Larreta pensavam que se havia perdido o rumo do barco. Então, começaram a pedir a volta de algumas taxas que o governo havia eliminado, e um aumento de impostos específicos a setores que foram os mais beneficiados com essas desvalorizações.

Mauricio Macri agiu para “acalmar” os mercados, com um vídeo publicado na quarta-feira (29/8). Numa aparição de menos de dois minutos, não deu maiores precisões, e transmitiu seu otimismo sobre o futuro dizendo que o FMI adiantaria os fundos que estavam assegurados para 2019 caso a Argentina cumprisse com as suas obrigações (o que ainda não fez), apesar de que o organismo não aprovou (pelo menos até agora) tal adiantamento.

Essa pequena malandragem do presidente foi a gota d´água. A situação já se mostrava feia antes do vídeo, e o chefe de gabinete macrista, Marcos Peña, tentou reforçar o discurso presidencial, declarando que os “mercados”, com quem o macrismo sempre pretendeu governar e para quem efetivamente governa, já haviam respondido com otimismo. Não era verdade. Ninguém acreditou em Macri. Perdeu-se a confiança até mesmo na figura presidencial, e os organismos estrangeiros aproveitaram esse momento de exposta fragilidade para demandar alguns “últimos favores”.

Agora, certamente criarão as condições para um próximo salto (ou assalto), sem excluir a possibilidade de uma mudança institucional. Durante a semana, o “risco país” novamente disparou; as taxas bancárias seguiram o mesmo ritmo; o dólar continuou se desvalorizando, agora de forma mais acelerada; ninguém sabe o nível da inflação, da queda do consumo e da atividade econômica – embora todos imaginem que esses índices já superaram os níveis de alarme social. Quem depende de rendas fixas (assalariados, aposentados, etc) ficou totalmente indefenso em meio à intempérie. O ponto máximo veio durante a jornada de quinta-feira (30/8), quando não havia preços e ninguém sabia o que podia acontecer.

Na sexta, as coisas se acalmaram um pouco, o Banco Central voltou a jogar reservas fora, e teremos que esperar esta primeira semana de setembro para saber o saldo da loucura desse fim de agosto, e se o placebo da sexta continuará sendo o único remédio que o governo conhece. O peso se desvalorizou verticalmente: perdeu ao menos 20% do seu valor em uma semana, e fechou numa média de 38 pesos por dólar, tendo chegado a um ápice de 42 pesos na quinta.

O famoso “risco país” alcançou os 771 pontos. As taxas de juros foram de 40 a 60% em uma semana. Ninguém se arrisca mais a medir a inflação, mas já se prevê uma cifra, não menor a 40% no cálculo da inflação anual de 2018.

O Banco Central insiste no leilão de reservas como única medida possível, e na sexta elas tiveram uma redução de 1,1 bilhão de dólares, grande parte destinada à contenção do dólar.

Agora, fica claro que o governo argentino foi abandonado por seus próprios defensores e usufrutuários, cansados da falta de competência para dar uma mínima sustentabilidade ao atual sistema. As grandes decisões estão nas mãos do FMI. A situação argentina e este fenômeno chamado “Efeito Tango” terminaram sendo, para a economia global, um ponto destacado da atual crise que se propaga pelo mundo capitalista.

Não há dúvidas de que os setores afetados por estas medidas, que são a maior parte do povo argentino, irão protestar contra esta situação. Os incipientes saques a supermercados registrados na sexta-feira (31/8), em cidades como Comodoro Rivadavia, Mendoza e Jujuy, parecem anunciar a tendência à qual o país se encaminha. Isso deve ficar mais evidente nos próximos dias, até ser amplificado na greve nacional e nas mobilizações previstas para os dias 24 e 25 deste mês.

Um macrismo sem futuro pressagia uma futura hegemonia peronista

Nesta última semana o governo comprovou novamente que não foi o peronismo e sua vocação de poder, nem a capacidade de ação do que chamam de “o Clube do Helicóptero” (setor empresarial que pressiona Macri a renunciar, em alusão ao que fez Fernando de la Rúa em 2001, quando fugiu da Casa Rosa de helicóptero após abandonar o poder), e tampouco foram os pedidos dos sindicalistas que detonaram esta crise atual. Pelo contrário, os principais responsáveis são os amigos e beneficiários deste plano.

A culpa é daqueles que agora só querem consolidar os lucros obtidos durante a atual gestão, transformando seus pesos em dólares para sair da Argentina em busca de novos mercados, para continuar multiplicando essa renda.

Os sistemas de poder político dos países centrais do ocidente enfrentam um problema: grande parte dos mandatários da chamada nova direita, que foi tomando o poder em muitos países, viu em Macri o modelo adequado para terminar com o “populismo” cristinista e as tradições peronistas. Por isso, esses poderes tentam ajudá-lo, com a obrigação de mantê-lo ainda com algum capital político até a próxima reunião do G20, que será em Buenos Aires. Essa é, aliás, a razão pela qual um eventual adiantamento dos fundos programados para 2019 poderia contar com o aval de Donald Trump.

Mesmo se Macri conseguir se manter no governo, estaremos às vésperas de um progressivo processo de transferência de poder às mãos dos setores peronistas. Tal tendência se refletiria, obviamente, nas eleições do próximo ano. O macrismo dificilmente recuperará seus plenos poderes, hoje nas mãos do FMI. Sua possível reeleição parece coisa do passado, e até mesmo sua ida a um segundo turno é discutível.

O país se encontra diante do paradoxo de um macrismo aceito e ajudado por representar a possibilidade de acabar com o peronismo ser o que cria este cenário onde as alternativas eleitorais estão entre grupos e frentes hegemonizadas por diferentes expressões peronistas – ainda que os limites, alcances e integrantes de cada um sejam ainda muito difusos e sujeitos a variações.

Por um lado está o peronismo K, cujo referente unificador é a ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner, e que reúne o cristinismo, grande parte do tradicional kirchnerismo, seus históricos aliados de esquerda, setores que vêm de diferentes agrupações juvenis, distintas organizações sociais e importantes setores sindicais – como a central CTA (Central de Trabalhadores da Argentina), conduzida por Hugo Yasky e a CFT (Corrente Federal de Trabalhadores), que forma aparte da CGT (Central Geral dos Trabalhadores).

Este setor tem a grande vantagem de uma liderança indiscutível, como é Cristina. Será ela que definirá se será ou não candidata, ou se prefere apostar em alguma outra figura (Máximo Kirchner, Agustín Rossi, Alberto Rodríguez Saa, Diana Conti, Eduardo “Wado” de Pedro, Juan Grabois ou Oscar Parrilli). Também está integrado pelos núcleos que mais rivalizam com o governo macrista. Possivelmente, reunirá a maior parte do voto peronista, mas tem que enfrentar a dificuldade do teto da ex-presidenta, que pode ser um limite para um eventual segundo turno eleitoral.

A outra vertente peronista que se apresenta eleitoralmente é a que congrega as agrupações mais moderadas, e que têm maior diálogo com o governo. Grande parte dos governadores e do bloco de senadores encabeçados por Miguel Ángel Pichetto constituem a força mais significativa desse setor, junto a outros vários e tradicionais dirigentes sindicais.

Seu maior problema está no fato de que carecem de uma liderança reconhecida a nível nacional. Seus muitos dirigentes que aspiram a posições mais destacáveis (Juan Manuel Urtubey, Sergio Uñac, o próprio Pichetto, Sergio Massa, Florencio Randazzo, Juan Schiaretti, etc) dificultam os acordos políticos e a configuração de uma estratégia eleitoral mais sólida. Contudo, parte desse grupo vem promovendo a candidatura do economista Roberto Lavagna. O ex-presidente Eduardo Duhalde lidera essa iniciativa, e conta com a inesperada ajuda de uma parte do Partido Radical, seu histórico rival, que não está disposta a seguir apoiando o macrismo.

*Juan Guahán é analista político e dirigente social argentino, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)