Após Oscar, atriz trans Daniela Vega impulsiona mudança de lei no Chile

Após Oscar, atriz trans Daniela Vega impulsiona mudança de lei no Chile Destaque

Após Oscar, atriz trans Daniela Vega impulsiona mudança de lei no Chile

Protagonista de ‘Uma Mulher Fantástica’ visitou o palácio presidencial em Santiago e cobrou das autoridades uma nova legislação sobre identidade de gênero



A equipe responsável por Uma Mulher Fantástica voltou ao Chile na terça-feira trazendo o Oscar de melhor filme estrangeiro, o primeiro de um longa-metragem chileno na história. A comitiva era encabeçada pela atriz transexual Daniela Vega, a protagonista do filme, que se tornou uma celebridade dentro e fora do país ao interpretar Marina, uma mulher – também trans – que enfrenta problemas após a morte inesperada de seu amante.

O melhor símbolo do novo status da atriz foi a sua chegada ao aeroporto de Santiago: de óculos escuros e chapéu preto, Vega teve que procurar uma saída alternativa para escapar da multidão de fãs que havia ido recebê-la. O tumulto não permitiu que ela conversasse ali com os jornalistas que a esperavam.

A cena, entretanto, serviu de preâmbulo para o que ocorreria naquela noite. A presidenta Michelle Bachelet convidou os responsáveis pelo filme, liderados pelo diretor Sebastián Lelio e a própria Vega, para uma visita ao Palácio de La Moneda. A mandatária segurou uma estatueta do Oscar pela segunda vez neste mandato (em 2016, também recebeu os criadores de História de um Urso, curta de animação ganhador nessa categoria). Na saída, todos os holofotes estavam voltados para a cintilante presença da atriz, e foi o próprio Lelio quem começou a disparar elogios: “A presença de Daniela foi fundamental; ela foi a grande embaixadora entre o filme e a realidade”.

“O mérito do filme é que ele fala aos espectadores”, acrescentou Vega, “convida-os a definirem uma postura perante Marina e o resto das pessoas trans”. Desde que começou seu percurso pelos festivais, há um ano, a produção vem dando mais visibilidade a essa realidade, que em muitos países não é respeitada. Nem mesmo no Chile, apesar do filme e do prêmio. “Neste país, ao qual eu retorno feliz com a equipe do filme, na minha carteira de identidade continua figurando um nome que não é o meu. O país onde eu nasci não me garante a possibilidade de ser eu”, disse a atriz.

Em um tom mais duro, Vega aproveitou a visita à sede do Governo para interpelar os parlamentares que há quatro anos debatem uma lei de identidade de gênero que estabeleceria mecanismos para que as pessoas transexuais possam alterar seu sexo legal. “A tramitação foi sendo adiada. Esta lei poderia ter sido despachada em seis sessões”, denunciou a atriz.

O sucesso de Uma Mulher Fantástica e sobretudo da figura de Daniela Vega geraram no Chile um ambiente propício para que a lei de identidade de gênero continue avançando. A jornalista Antonella Estévez, diretora do Festival de Cinema de Mulheres do Santiago (Femcine), já havia apontado isso no EL PAÍS: “A figura de Daniela Vega, com sua estampa e seu manejo das câmeras, é um poderoso golpe contra aqueles que têm o olhar muito limitado”.

Cinema que muda a sociedade

Após meses de tramitação emperrada, o Governo de Bachelet acolheu a inquietação do diretor Lelio – que disse após ganhar o Oscar que a nova lei era “um assunto urgente” – e acelerou o trâmite legislativo. Agora o projeto acaba de passar por uma nova etapa em seu processo de aprovação no Senado, e ambas as câmaras terão que resolver suas discrepâncias a respeito de artigos como o que permite, sob certas condições, que os menores de idade possam alterar seu sexo legal. O Governo, em fim de mandato, quer incorporar os menores de idade à lei de identidade de gênero, aproveitando acordos obtidos na Câmara dos Deputados, mas ainda resta um longo caminho a percorrer.

A proximidade da mudança de Governo e a urgência extrema dada por Bachelet ao projeto motivaram críticas à presidenta. Numa entrevista televisiva, a mandatária respondeu com ironia: “Eu achava que estávamos todos felizes por termos um Oscar. É a oportunidade para que avancemos de verdade [na aprovação da lei de identidade]. Não só que aplaudíssemos ao ganhar a estatueta, mas depois votássemos contra. Temos que ser coerentes”.

“É muito emocionante quando o cinema tem o potencial de ir além”, disse o diretor de Uma Mulher Fantástica após a visita ao La Moneda, referindo-se ao debate que seu filme gerou. “Acredito que o filme tenha instalado esse diálogo [sobre a identidade de gênero] onde quer que tenha sido exibido”, acrescentou.

Fonte: El País